Atlas da política externa brasileira - livro digital
Como analisar momentos-chave da inserção internacional do Brasil com uma linguagem acessível e sem perder a profundidade científica?
O Atlas da Política Externa Brasileira: governos Temer e Bolsonaro cumpre esse desafio, retratando um período decisivo da história recente do país por meio da cartografia temática aplicada às Relações Internacionais. Com o uso de representações visuais instigantes e criativas, como mapas e infográficos, seus capítulos atravessam os principais temas da política externa brasileira dos últimos anos a partir de uma perspectiva transdisciplinar, analisando um dos momentos mais críticos da história diplomática do Brasil.
O impeachment contra a presidência de Dilma Rousseff em agosto de 2016, além de uma fratura na ordem político-institucional interna, significou uma mudança de eixo na política externa brasileira. Desde a gestão de Michel Temer, observava-se uma reversão de prioridades diplomáticas. Contudo, na administração de Jair Bolsonaro, o Estado brasileiro operou uma forte e deliberada ruptura com tradições históricas de sua diplomacia. As disrupções mais notórias foram relativas à promoção do multilateralismo, à inserção internacional autônoma e sem alinhamento automático, à busca pelo fortalecimento dos vínculos com países do Sul e ao aprofundamento da integração regional.
A conjunção de crises (política, econômica e social) junto com projetos que foram colocados no lugar dessa tradição faz jus à definição de ?Tempos Sombrios?. A política externa converteu-se em instrumento para a promoção de uma identidade de pária internacional, caracterizada por uma postura fortemente reativa e hostil contra organismos multilaterais. Adotou-se um alinhamento incondicional e subalterno aos Estados Unidos, impulsionado pela projeção de uma identidade ocidental, cristã, ultraconservadora e negacionista, além de um alinhamento estratégico aos setores mais intransigentes e predatórios do agronegócio nacional.
Ademais, se a política externa brasileira vinha tateando e consolidando processos de abertura para uma participação mais incisiva e mais plural da sociedade civil nas décadas anteriores, durante o período Temer e Bolsonaro, o movimento foi inverso. Iniciativas autoritárias foram colocadas em prática para turvar o processo decisório, centralizando-o e obscurecendo-o em benefício de grupos restritos e ideológicos mais próximos ao poder.
Apesar desse cenário de desconstrução, o período foi marcado também por intensas resistências na sociedade civil brasileira, no corpo burocrático estatal e por atores transnacionais. O vínculo previamente estabelecido com o multilateralismo internacional e o viés profundamente humanista da Constituição de 1988 serviram como âncoras na busca por resistir à destruição das credenciais diplomáticas do Brasil.
A mudança de governo em 2023, forjada em uma eleição tensionada e sob a sombra de uma tentativa de golpe de Estado, evidenciou que as forças e as ideias que alimentaram esse período seguem vivas, articuladas e capazes de retornar ao poder. Essa é uma história que precisa começar a ser contada.
Magno Klein